Projeto tem que ser: único, temporário e objetivo
Equanto isso na software house. ..
Aquela manhã de segunda-feira estava especialmente nublada, mas ainda melhor que os dias chuvosos da semana anterior. A equipe chegava lentamente na sala de reuniões, devido a uma convocação do Sr. Gustavo, diretor da empresa. Eram 8:16 da manhã. E ele foi o 1º a chegar. Todos chegaram, exceto o Luis Augusto.
Gustavo: – Bem pessoal! Espero que todos tenham descansado no final de semana. Sei que passamos por um momento difícil, mas conseguimos superar, e isso nos torna mais fortes.
Hoje iniciaremos um novo projeto, acredito ser a hora para conversarmos sobre os problemas que encontramos no projeto anterior.
Um desconforto geral percorre a sala.
Gustavo: – Sei que não foi uma experiência das mais agradáveis, mas no final conseguimos entregar o sistema no prazo, e agradeço a todos pelo empenho e dedicação para que conseguíssemos isto. Especialmente à Fernanda e o Wilson, que encabeçaram o projeto. Alguém tem algo a dizer?
Fernanda: – Eu também gostaria de agradecer a todos. Foi cansativo, mas parece que conseguimos atender às necessidades do cliente. Acredito que devemos desta vez, trabalhar um pouco mais na identificação dessas necessidades pra diminuir o trabalho de refazer boa parte do sistema. Também, ele mesmo não tinha certeza do que queria. Se tivéssemos as necessidades bem definidas tenho certeza que faríamos um trabalho melhor e não teríamos o estresse que tivemos nas duas últimas semanas.
Wilson levanta a cabeça, e troca um cansado olhar com a Fernanda, que rapidamente desvia e segue falando.
Fernanda: – Esse é o momento para que todos comentem sobre esta experiência. Só assim poderemos reverter esses problemas no próximo projeto. Quem começa?
Ninguém começou.
Gustavo: – Luciana, pode começar?
Luciana (visivelmente constrangida): – Acho que um dos problemas que tivemos foi o cronograma muito apertado. Se tivéssemos mais tempo conseguiríamos desenvolver algo com mais qualidade. Penso também que não estamos conseguindo controlar a qualidade do produto. O Carlos identificou uma série de problemas na quinta-feira, sendo que a entrega era na sexta. Se o Wilson não tivesse largado tudo e nos ajudado, não sei o que seria.
Gustavo: – O prazo que tínhamos era este se atrasássemos a entrega teríamos que pagar multa contratual. Prazo é prazo.
Fernanda: – Temos que definir melhor nossos prazos de entrega junto ao cliente. Reconheço que ainda não temos um método preciso de estimar software. Mas ainda assim todos sabiam da data de entrega, acho que todos somos responsáveis pela correria final.
Clóvis: – Todos sabíamos, mas eu não sabia o quanto o projeto estava atrasado. Acho que deveria haver um controle maior sobre isso.
Fernanda (fuzilando Clóvis com o olhar): – Várias vezes eu falei que, do jeito que as coisas iam, não conseguiríamos entregar o produto na data prevista. Por mais que cobrasse, os componentes não eram produzidos no ritmo que necessitávamos.
Clóvis: – Seriam, se não tivéssemos outros sistemas para manter. Talvez devêssemos aumentar a equipe.
Gustavo: – Para aumentar a equipe precisamos faturar mais, além disso, está muito difícil encontrar técnicos qualificados e disponíveis. Ainda acho que nossa melhor alternativa é contratar estagiários e formá-los aqui dentro mesmo. Temos o Carlos e o Dario que em breve deverão ser efetivados.
Fernanda: – Mesmo assim, se já vamos iniciar um novo projeto, precisaremos de uma equipe maior, até porque, sabemos que o projeto anterior não está completamente encerrado né?
Novo desconforto geral.
Gustavo: – Por falar nisso, onde está o Luis Augusto?
Clóvis: – Recebeu uma ligação do cliente, parece que o sistema travou.
Gustavo: – Mas são 8:15 !!!
Clóvis: – Pois é, parece que deu problema na integração com faturamento. Na 1ª nota fiscal emitida o sistema já deu problema.
Gustavo: – Wilson, vai lá dar uma olhada.
Wilson sai da reunião.
Fernanda: – Carlos, a integração não foi testada?
Carlos: – Verifiquei o protocolo e estava OK. Quer que eu vá lá ver o que aconteceu?
Fernanda balança a cabeça contrariada.
Fernanda: – Não, fica aqui, o Wilson já foi.
Volta o Wilson
Wilson: – Tinha um campo faltando no protocolo, o Luis já arrumou.
Fernanda (contrariada): – Carlos, chegaste a testar o protocolo?
Wilson: – A implementação está correta, a especificação é que estava com o campo em branco.
Silêncio.
Luciana: – Eu vi que tinha um campo em branco, mas achei que era assim mesmo. Acho nossas especificações muito superficiais.
Wilson: – Acho que nós devíamos começar a revisar as especificações. Pelo que o Luis falou, o cliente não estava muito feliz ao telefone. Acho que o sistema está muito na cabeça de cada um. Fica impossível avaliar se os requisitos estão corretos se não estão definidos no papel.
Gustavo: – Se as vendas dele pararam por causa do sistema, imagino que ele não esteja muito feliz mesmo.
Entra o Luis.
Luiz Augusto: – Bom dia pessoal, desculpem o atraso.
Gustavo: – O que aconteceu?
Luiz Augusto: – O sistema não estava se comunicando com o financeiro. Um campo estava faltando no arquivo de comunicação.
Fernanda afunda na cadeira.
Gustavo: – Mas isso não foi testado no usuário antes do sistema entrar em operação.
Luis Augusto: – Na verdade não deu tempo. Fizemos a conversão e colocamos o sistema no ar.
Gustavo: – Isso não pode acontecer. O que mais não foi testado pelo usuário.
Luis Augusto: – Na verdade quase nada, terminamos a implantação hoje às 2 da manhã.
Gustavo: – E o usuário não validou o sistema?
Luis Augusto: – Não deu tempo. O sistema tinha que entrar hoje. Identificamos alguns problemas já na implantação do sistema. Por sinal… se minha presença não for imprescindível… preciso fazer algumas alterações no sistema. Ocorreu um problema na conversão de um arquivo, vou precisar fazer um bacalhau pra ajeitar isso antes que o cliente gere o relatório.
Gustavo: – Pode ir.
Sai o Luis Augusto.
Wilson: – Mais um bacalhau pro nosso diretório. O que tem de gambiarras lá dá pra fazer um sistema novo.
Gustavo: – Por que isso está acontecendo?
Wilson: – Precisamos de mais detalhamento nas especificações. Sem saber exatamente a estrutura de dados do cliente… fica difícil.
Gustavo: – Fernanda, como isso não nos foi informado?
Fernanda: – Acho que precisamos manter um canal de comunicação mais direto com o cliente. Ele devia ter nos informado da mudança.
Gustavo: – Quando foi que ele fez a última avaliação do projeto?
Fernanda: – Na verdade…. ele nunca fez. Mas não sei onde poderia estar o problema. Sobre o protocolo, o Dario foi na empresa e trouxe os detalhes dos formato dos arquivos de comunicação entre o nosso sistema e o ERP.
Dario (pensando): “-Tinha que sobrar pro estagiário”.
Wilson: – Acho que da próxima vez deveríamos mandar alguém mais experiente.
O telefone toca, ouvem o Luis Augusto atendendo na sala ao lado.
Luis Augusto (aparecendo na porta): – Não deu tempo, o cliente já gerou o relatório.
Luciana: – Xiiiiiiii !!!!!
Gustavo: – Pessoal, tem mais alguma surpresa????
Carlos: – Tem algumas correções que eu pedi que acho que ainda não foram feitas.
Gustavo: – Todo mundo sabe o que precisa ser feito?
Silêncio.
Gustavo: – Carlos, onde essas correções estão anotadas?
Carlos: – Não estão, conforme o problema ia aparecendo eu ia avisando o pessoal.
Clóvis: – Alguns não eram problemas realmente. Por exemplo. Na emissão do relatório a data inicial não pode ser maior que a data final, mas o usuário sabe disso…. nem mexi. Por sinal. O Carlos precisa filtrar melhor o que é e o que não é defeito. No meio da correria é complicado mudar tudo o que ele quer. Eu acho que, se não afetar a funcionalidade, vai assim mesmo. Outra coisa. Ele disse que o fechamento do mês está lento. Eu acho que não, na minha máquina rodou legal. Outra coisa. Como trabalhamos muito na última semana, muitas vezes o que o Carlos testava já nem era a última versão.
Gustavo: – O que achas Carlos?
Carlos: – Acho que, se não é pra corrigir os problemas que eu encontro, é melhor eu voltar pro desenvolvimento, não precisa de alguém pra testar, cada desenvolvedor mesmo testa e, se eu não for informado das alterações, como vou saber que não é a última versão?
Clóvis: – Acho que é importante alguém testando, mas que saiba identificar bem o que é e o que não é defeito. Acho que se o sistema rodou… tá pronto.. ‘fru fru’ fica pra depois.
Gustavo: – Quanto tempo o sistema levou pra rodar o fechamento?
Carlos: – Na minha máquina 2 horas.
Clóvis: – Na minha, 30 minutos, acho que tá bom.
Gustavo: – Fernanda. Qual o servidor do usuário?
Fernanda: – Não sei bem, mas acho que não é muito bom. Ele disse que tem um contrato de 4 anos com o fornecedor do hardware, antes disso ele não vai investir em máquinas novas.
Gustavo: – Precisamos de um critério que determine quando o sistema pode ser liberado pra produção. Existem defeitos graves no sistema?
Carlos: – Alguns, mas o Luis disse que ia trabalhar nisso ainda hoje.
Gustavo: – Ele ta apagando incêndio. Fernanda, o que achas de colocar o Dario para cuidar disso?
Fernanda: – Pode ser. Acho que, inclusive, poderíamos adiar um pouco esta reunião até que o sistema se estabilize. Todos temos o que fazer hoje. Ou isso, ou vamos atender muitos telefonemas do usuário.
Gustavo: – Nós temos um critério de conclusão dos testes?
Fernanda: – Temos. O prazo de entrega.
Gustavo: – Um dia teremos que parar pra repensar nossa metodologia. Todo sistema que desenvolvemos é um stress. Quando chegamos nos últimos dias, sempre tem um monte de horas extras pra fazer. Nunca dá tempo. Nunca testamos o suficiente. Nossa manutenção corretiva é sempre longa. Precisamos iniciar um novo projeto, mas eu não posso contar com toda a equipe por que estão terminando o projeto anterior. Os clientes ficam insatisfeitos. Quando eu fundei esta empresa eu ainda tinha cabelos. Daqui a algum tempo nem barba mais eu terei.
Luciana: – Acho que deveríamos melhorar os testes. Muitos furos estão chegando ao cliente. Temos que lavar a roupa suja em casa.
Wilson: – Temos que melhorar as especificações. Sempre temos que usar de muita imaginação na hora de construir o sistema. Além disso, quase sempre, ao final do desenvolvimento, fica um desenvolvedor quase dedicado ao projeto pra realizar as correções. A cada novo projeto temos menos gente trabalhando. Se vamos iniciar um novo projeto, precisamos de mais gente. Tá todo mundo ocupado e eu sempre termino ajudando todos os projetos. Além disso, é o fim da picada testar versão errada do software.
Fernanda: – Todo mundo sabe que temos que melhorar nossa forma de desenvolver, mas não conseguimos tempo pra parar pra pensar nisso.
Gustavo: – Por isso contratamos o consultor. Pena que não deu certo.
Clóvis: – Se fizéssemos tudo o que ele mandava, viraríamos um cartório. Precisaríamos de 2 pra desenvolver e 4 pra documentar.
Luciana: – Por outro lado teríamos controle sobre tudo. Hoje, me desculpem, não temos controle sobre quase nada. Quando o Wilson tirar férias… só quero ver.
Wilson: – É no mês que vem.
Carlos: – Acho que precisamos investir nos requisitos sim. Quando o sistema chega pra eu testar, eu testo, mas faço a partir do que eu acho que deve ser testado. Não existe um planejamento e eu sou novo nisso. Alguém deveria me dizer quais pontos devem ser testados, senão eu só testo a interface. Outra coisa. Sempre que chego com algo pra alterar me olham com cara feia. A culpa não é minha se o sistema tem problemas. Se ninguém der bola pra o que eu digo, vou voltar pro desenvolvimento.
Fernanda: – Acho que precisamos de um testador mais qualificado. Não que o Carlos não seja bom, apenas ele não têm experiência com os domínios que trabalhamos, além de nunca ter estudado sobre teste de software. Acho que não foi uma boa estratégia tirarmos ele de desenvolvimento para o teste. Na hora de testar termina avaliando só o básico. Também precisamos de ferramentas. Acho que só assim não viraremos um cartório, mas sim uma software-house de verdade. Acho também que devemos voltar a estudar um pouco, ver o que está acontecendo por aí, como o pessoal anda resolvendo esses problemas que nós temos.
Luis Augusto (entrando na sala): – Wilson, preciso da tua ajuda.
Wilson (pensando): “- Grande novidade”.
Gustavo: – Bem pessoal! Acho que é o fim da nossa reunião. Não decidimos nada, continuamos a conversar amanhã quando iremos apresentar o novo projeto.






